Metodologia

Considerações sobre as Projeções

Nesta edição do Outlook Fiesp, o cenário foi marcado pela grande variação entre as safras 2015/2016 e 2016/2017. Na primeira, as baixas produtividades tanto da soja quanto, principalmente, de milho, provocaram escassez no mercado interno. No caso do milho, os preços explodiram, prejudicando as cadeias das carnes.

Na safra 2016/2017, a oferta foi abundante, fruto das excelentes produtividades em praticamente todas as principais regiões produtivas do País, que proporcionaram uma safra recorde. Também tivemos boas produtividades em outros países importantes, como os EUA, o que pressionou para baixo os preços internacionais. Da mesma forma, no açúcar, passamos de cotações recordes em 2016 para um cenário de preços mais baixos em 2017. A valorização da moeda brasileira em relação ao dólar também não contribuiu para uma melhor precificação dos produtos agrícolas.

Apesar do risco climático inerente ao setor, projetamos um cenário de menor volatilidade externa nos mercados agrícolas, após uma estabilização dos preços das commodities em geral. No mercado interno entendemos que, apesar do risco político devido às incertezas quanto as eleições de 2018, trabalhamos com um cenário de retomada do crescimento econômico. Nesse sentido, a eventual escolha de um presidente que não dê continuidade às reformas econômicas implementadas constitui um risco considerável ao cenário macroeconômico, prejudicando a retomada definitiva do crescimento econômico do País, com consequências para as estimativas aqui apresentadas.

Mesmo com um horizonte previsto de menor volatilidade, com a retomada da política econômica adequada e voltada ao crescimento sustentado, muitas incertezas continuam presentes e permeiam o universo das projeções, adicionando um grau maior de dificuldade no exercício aqui desenvolvido de prever o futuro.

As estimativas de crescimento mundial e nacional determinam a demanda pelos produtos agropecuários e as variações cambiais trazem mudanças na competitividade do setor. Além disso, a crise econômica acaba afetando outras variáveis, como a disponibilidade de crédito e o endividamento das empresas, com efeitos significativos sobre o agronegócio.

Utilizamos como cenário-base a perspectiva de que o momento mais turbulento da economia já passou e que o ajuste macroeconômico ocorrido até aqui permitirá uma retomada mais consistente do crescimento a partir de 2018. Consideramos também que não haverá interrupção abrupta do crescimento mundial e que, apesar da desaceleração dos países emergentes, a demanda por alimentos seguirá aquecida, mesmo que em taxas inferiores às observadas nos últimos anos.

No mais, o Outlook Fiesp tem o intuito de trazer elementos para discussões acerca dos diversos setores envolvidos com o agronegócio e, com isso, auxiliar a identificação de gargalos e a elaboração de propostas para o futuro do setor, possibilitando antever as ações necessárias diante do crescimento esperado.

O modelo, aperfeiçoado ao longo dos últimos anos, estabelece um balanço de oferta e demanda mundial que mantenha consistência entre as principais economias produtoras e consumidoras de alimentos do mundo. A consistência é avaliada a partir das relações estoque/uso que devem manter o mercado estabilizado no longo prazo.

O modelo de projeção da produção brasileira, no caso das commodities consideradas, parte de um balanço mundial da produção e consumo de alimentos, no qual a demanda de cada país é estabelecida a partir das expectativas de aumento da população e do crescimento da renda per capita, combinados às elasticidades-renda dos alimentos em cada um dos países. As previsões de renda utilizadas são as divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e da população, pela Organização das Nações Unidas (ONU). No caso brasileiro, as estimativas de crescimento da economia foram feitas pela MB Associados, com base em seu modelo macroeconômico de consistência para o País.

Do ponto de vista da oferta, a produção de alimentos é estimada com base na tendência da produtividade e da área disponível em cada um dos principais produtores. O Brasil é variável-chave para o fechamento do balanço internacional, dado que é uma das poucas regiões em que ainda é possível obter ganhos de produtividade, aliados ao aumento da área agrícola, ao contrário, por exemplo, dos EUA, onde a produção só pode crescer a partir de ganhos restritos de produtividade ou de menor produção de uma determinada commodity em detrimento de outra, pelo remanejamento de uma área produtiva relativamente fixa.

Obtida a produção brasileira necessária para que a relação estoque/consumo mundial se mantenha em um patamar em que os preços justifiquem o crescimento da oferta global, as áreas demandadas para alcançar tais produções são estimadas a partir da curva projetada de produtividade para cada uma das commodities agrícolas em cada uma das regiões brasileiras.

Uma peculiaridade no caso do etanol é que o consumo interno brasileiro é derivado de um modelo de crescimento e depreciação da frota de veículos em função do PIB, tendo como variável exógena a participação dos veículos Flex Fuel nas vendas totais.

Para a celulose, a demanda por áreas plantadas com florestas vem dos novos investimentos em fábricas programados pelo setor, que, no longo prazo, atendam à demanda para exportação e para o mercado interno da celulose produzida no País.

As áreas e as produtividades esperadas são as variáveis de entrada no modelo de demanda de fertilizantes da agricultura brasileira. Associando essa produtividade com a curva de resposta à adubação, estabelece-se a necessidade de NPK por hectare para cada cultura. Multiplicando a área total de cada cultura pela necessidade desse NPK, chega-se ao consumo de NPK para as lavouras. Adicionando a esse consumo o de fertilizantes para as pastagens, o reflorestamento e a adubação de base para abertura de novas áreas, totaliza-se a demanda total de NPK para o Brasil até 2027.

A partir dos projetos de investimento no aumento da capacidade instalada de produção de fertilizantes no País, estima-se a oferta doméstica futura de nutrientes, tendo como pressuposto um nível histórico de utilização da capacidade instalada. Com a oferta desses nutrientes por região, o balanço entre demanda e oferta é calculado, obtendo-se a necessidade de importação em 2027.

Como a maior parte dos projetos de novas plantas de fertilizantes está suspensa ou foi postergada, nesta edição optamos por elaborar apenas um cenário de oferta para o setor. Nesse cenário, consideramos apenas as plantas em processo de instalação e, com isso, existe um aumento significativo da dependência externa no suprimento da necessidade brasileira de fertilizantes no horizonte projetado.

Vale ressaltar, como observação para todo este trabalho, que as projeções adotam pressupostos que podem ser modificados ao longo do período considerado: eventos climáticos mais severos, abertura de novos mercados, modificação de status sanitário e redução ou aumento do protecionismo internacional são apenas algumas das variáveis que podem afetar as expectativas para determinado produto.

Em alguns produtos como o arroz, feijão, trigo e leite, a produção é primordialmente direcionada pela demanda do mercado doméstico, dado que, para estes o País não se configura como grande player no mercado internacional.

Devido à possibilidade de alteração nas estimativas em razão dos fatores de risco inerentes ao setor agrícola ou a mudanças nas expectativas macroeconômicas, a partir desta edição as previsões serão revisadas de forma periódica ao longo do ano ou caso algum evento mais relevante signifique uma modificação importante das perspectivas para as commodities analisadas. As atualizações realizadas poderão ser acompanhadas nesse site.